2.367 homicídios de janeiro a junho no Estado do Ceará

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14 jul 2014

A quantidade de homicídios no Ceará aumentou 11,4% no primeiro semestre deste ano em relação a igual período de 2013. Nada menos que 2.367 pessoas assassinadas – no ano passado foram 2.124. Os roubos reduziram 53,8 % nos três primeiros meses (período divulgado pela SSPDS). Mas o aumento de mortes se mantém no lugar em que sempre esteve: na periferia, com jovens, negros e de pouca escolaridade. Fora desse eixo “a sensação” pouco mudou.

 

Dentro dele, mais que números, há nomes. Em apenas seis meses foram mais de duas mil mortes, que geralmente têm repercussão quando são somadas em números e dão uma considerada dimensão do que seria a violência. A transformação de um número em um nome do que chamamos de vítima é medida pela proximidade, ou não, dessa vítima com o que é comumente chamado de “cidadão”, apontam especialistas e vítimas de violência ouvidos pela reportagem do Diário do Nordeste.

 

“Enquanto não entrar no crime, o indivíduo é um cidadão. Se rouba, mata ou trafica, passa a ser visto como uma pessoa sem direitos. E se for jovem, preto e pobre, pode não ter crime algum mas aos olhos alheios pode ser visto como um ‘não-cidadão’”, explica o doutor em sociologia Alcebíades Azevedo, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), especializado em estudos sobre a vulnerabilidade de populações periféricas.

 

É um pensamento parecido com o de Fabiano dos Santos, 26, morador da Barra do Ceará, negro, que possui apenas o ensino fundamental e trabalha como porteiro em um condomínio no Bairro de Fátima. Foram 2.367 assassinatos no Ceará. Nenhum absurdo se comparado aos anos anteriores, em que só diferenciam algumas centenas. “Um a mais ou um a menos gera quase nenhuma aparente diferença”, afirma Alcebíades.

 

Mas se esse número a menos fosse o nome de Francisco Erivaldo Marinho, motorista de ônibus, fica mais fácil perceber o valor de uma subtração numérica não só para seus familiares como para os motoristas de ônibus (realizaram protestos na Capital) ou muitas pessoas em geral que ficaram sabendo da sua morte a faca – o autor do homicídio teria apenas 11 anos.

 

Mas Francisco Breno dos Santos, um jovem de Caucaia, negro e de baixa escolaridade, fez a diferença para a sua família. Um de seus parentes (identidade preservada) encontrou-se com a reportagem. Queria um lugar longe de casa para poder dar seu depoimento. “Dá certo em uma faculdade, porque ninguém vai pensar que vou pra lá”. E assim nos encontramos na Universidade Estadual do Ceará (Uece), o “lugar improvável”.

 

“Você vai me perguntar se eu mexo com coisa errada?”. O jovem pediu para não ser fotografado porque diz não confiar na imprensa, nem em ninguém. “Só falam de onde a gente mora quando morre alguém” – e não são poucas as mortes na Granja Portugal, um dos territórios em que mais a Polícia tenta balizar ações para conter a criminalidade crescente.

Responsabilidades

“Sobrou para a Polícia a responsabilidade de delimitar os territórios criminais. Mas antes disso, são territórios de ausência do Estado em suas diversas formas. Se for selecionar as áreas que mais sofrem com falta de saneamento, com instituições educacionais e, portanto, pessoas sem escolaridade, estará separando a área com maior índice criminal e isso não é coincidência”, explica Eunice Satin, coordenadora no programa Juventude Viva, cooperação da Secretaria Nacional da Juventude com a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. O programa atua com jovens que moram nas periferias do País.

Boeings que caem

“É preciso dar os nomes desses corpos. Ninguém é só um número. Todos os meses morrem no Brasil o equivalente a dois Boeings lotados apenas de jovens negros”, afirma Eunice. “Assim como duas pessoas que têm afinidades mas moram em lados opostos do planeta encurtam essa distância justamente porque são afins, o vizinho que mora do outro lado da rua pode estar quase tão distante quanto as pessoas que moram na Síria”, afirma a psicanalista Silvana Freitas.

 

Na sua avaliação, a sensação de não pertencimento aos problemas primeiro faz com que eles se tornem menores. “Uma pessoa se torna um número, esse número é englobado na estatística, só ganhando valor quando totalizado, e daí pouca diferença faz se morreu na periferia A ou B e a polícia disse que morreu porque era traficante. Enquanto tudo for tão reduzido a isso, a violência só vai aumentar. E a cobrança diminui quando alguém reconhecido pela sociedade é vítima direta dessa violência. Apareceram muitas pessoas dizendo que a violência aumentou, só porque está mais próxima”.

 

O parente de Francisco Breno, vítima de homicídio neste ano, diz que se cada rua onde mora tivesse o nome de morador assassinado, “ia faltar rua para tanta placa”. “A pessoa morre, a Polícia diz que tinha envolvimento com o tráfico. Muitas vezes nem tem nome fichado na Polícia, mas dizem que é envolvido com tráfico. Eu não sou, mas meus amigos são. Na minha rua tem boca de fumo, mas também falta muita coisa. Para chegar em casa, preciso passar em frente da boca. Se morro ali e caio, vão dizer que é um a menos”.

 

Para Marcelo Paixão, coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), separar quem cometeu crime de quem não cometeu na hora de avaliar a dimensão da morte é apenas mais uma forma de violência. “Isso porque as formas de violência que mais conhecemos são resultado de discriminação. Separar em pessoas de bem e de mal não resolve o problema”, afirmou.

Os números

Arte: Diário do Nordeste. (Fonte: SSPDS)Os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) abrangem homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Só foram fornecidos números de Crimes Violentos ao Patrimônio (CVPs) até o mês de março devido a uma mudança pela Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) no sistema de registro de ocorrências policiais.

A estatística é atualizada semanalmente e motivo de reunião dos comandos da Segurança Pública como forma de balizar as ações por parte da Polícia em uma determinada área. A partir deste ano os nomes das vítimas têm sido divulgados, além dos números. O acompanhamento é uma das etapas do ‘Programa em Defesa da Vida’, que funciona desde janeiro deste ano. O projeto prevê pagamento de gratificações para os agentes de segurança que conseguirem reduzir os índices de crimes no Estado. A meta estipulada para redução de crimes contra a vida é de 6 % e de crimes contra o patrimônio de 20%.

Diário do Nordeste

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