33 mil alunos cearenses abandonaram o ensino médio; 156 mil estão na série errada

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4 ago 2014
O índice de abandono de 9,6% em 2013 é o menor dos últimos seis anos no Ceará. Em 2008, era de 15,7%. Mesmo assim ainda é um dado alarmante. (Foto: Mauri Melo / O Povo)

O índice de abandono de 9,6% em 2013 é o menor dos últimos seis anos no Ceará. Em 2008, era de 15,7%. Mesmo assim ainda é um dado alarmante. (Foto: Mauri Melo / O Povo)

A mãe adoece. E a garota vê o amor esbarrar numa outra necessidade. Tornar-se sentença de um possível abandono. “Era só nós duas lá em casa. Se eu fosse pro colégio, não tinha quem cuidasse dela”. Faltou quase nada para a jovem afastar-se dos estudos. Foi preciso a escola intervir. “O pessoal (diretor/coordenador) chamou tio, primo… Pediu pra um ficar um dia, outro ficar outro…”. Não fosse isso, ela teria reforçado a estatística preocupante dos 33 mil alunos do ensino médio cearense que abandonaram a sala de aula no ano passado.

 

Segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), isso representa 9,6% do corpo discente dos cinco níveis do último período da educação básica, que é formada pelo primeiro, segundo e terceiro anos regulares, o quarto ano dos ainda existentes cursos pedagógicos para formar professores e as turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A rede pública do Ceará no ensino médio é composta por 350 mil estudantes.

 
Esse índice de abandono de 9,6% em 2013 é o menor dos últimos seis anos no Ceará. Em 2008, era de 15,7%. Por outro lado, apesar de também ter caído, é alarmante a elevada quantidade de alunos cursando as séries do ensino médio fora da idade considerada ideal pelas diretrizes educacionais nacionais para cada nível.

 
Conforme o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2014, o Ceará teve em 2012 – dado mais atual – uma taxa líquida de matrícula de 55,3%. Isso significa dizer que os 44,7% dos demais estudantes estão na chamada distorção idade-série. Não concluem o primeiro, segundo e terceiro anos aos 15, 16 e 17 anos, respectivamente. Estimativas feitas pela Seduc ao O POVO apontam pouco mais de 156 mil estudantes com esse perfil.

 
Outro indicativo incômodo do Anuário é o elevado percentual de jovens de 19 anos que não concluíram o ensino médio no Ceará. Eles não terminaram os estudos por já estarem em anos errados (distorção idade-série) ou por terem abandonado a escola. Quarenta e sete por cento dessa faixa etária do Estado estava nessa situação em 2012. Das nove maiores regiões metropolitanas do País, Fortaleza tem o quarto maior índice de não conclusão (49,4%).

 
Titular da Seduc, Maurício Holanda diz que boa parte do abandono no ensino médio concentra-se nas turmas noturnas, cujo perfil do alunado difere daquele dos períodos diurnos. À noite, em geral, estudam os jovens que trabalham pela manhã e à tarde.

 
Mas ele lista outros motivos para ainda existirem tantos abandonos e distorções. “A perda de interesse diante de fracassos (reprovações) acumulados; a pressão pra ganhar dinheiro e se afirmar como consumidor independente; o clima escolar, de o jovem chegar na escola e nem sempre encontrar um ambiente de coleguismo; e o currículo escolar, que poderia ser enxuto, mais consistente e menos academicista e descontextualizado”.

 
Na análise do secretário, o Ceará “vai bem” nos indicadores nacionais. “Quando você analisa a taxa líquida de 1995, o Ceará tinha 13,2% e o Brasil tinha 23,5%. Em 2012, o Ceará tinha 55,3% e o Brasil tinha 54,4%. Nós crescemos 42 pontos, enquanto nacionalmente se cresceu 30. Estamos num ritmo melhor, mesmo sendo um estado pobre. Mas o ensino médio é o grande gargalo da educação. Você vê as coisas melhorando no ensino fundamental e um gargalo muito forte no ensino médio, porque os meninos já têm uma certa decepção. A gente está tentando deixar a escola mais desejada pelos alunos”.

 
Além de mudanças no currículo escolar, ele defende a oferta de uma rotina diferenciada de estudos para os alunos do período noturno. Ao invés de o ensino médio ter três anos, passar a quatro, por exemplo. E com menor carga de horas/aula/dia. “É pesado o cara passar o dia trabalhando e ir para a escola à noite. A gente precisa compreender as especificidades”, pondera.

 

O Povo Online

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