Crise hídrica acirra disputa por água no interior do estado

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9 out 2015

Diário do Nordeste – A decisão do Governo do Estado, de decretar “situação crítica de escassez hídrica em todo o Ceará”, não é surpresa em algumas regiões do Interior, como o Sertão Central. Noutras, como o Centro-Sul, a divulgação obteve ampla repercussão. O presidente da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Expedito Nascimento, prefeito de Piquet Carneiro espera que, após o decreto emergencial reconhecendo a crise hídrica em todo o território cearense, aconteçam novas ações emergenciais, principalmente, a perfuração de mais poços. Enquanto isso, em várias localidades do sertão, a disputa pela água se acirra.

 

O açude Sousa, em Canindé, encontra-se seco e sua bomba desativada. FOTO: CID BARBOSA / DIÁRIO DO NORDESTE

O açude Sousa, em Canindé, encontra-se seco e sua bomba desativada. FOTO: CID BARBOSA / DIÁRIO DO NORDESTE

O representante dos prefeitos cearenses reconhece o esforço do Governo em buscar soluções para a crise. Equipes da Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH) estão realizando estudos geológicos e orientando a perfuração de poços nas cidades onde a situação está mais crítica. Mas há a necessidade de perfuração de mais poços, em menor tempo. Ele espera que o impacto da divulgação do ato declaratório hídrico tenha serviço de alerta para a população, inclusive da capital, quanto à necessidade do uso consciente, do racionamento de água.

 

O prefeito de Quixeramobim, no Sertão Central, Cirilo Pimenta, faz a mesma avaliação. Desde 1993 a sua cidade não tinha passado por situação tão crítica. Enquanto a adutora do açude Pedras Brancas, em Banabuiú, não é concluída, para o abastecimento de cerca de 50 mil habitantes, já que os açudes do Município secaram, a salvação está vindo dos carros-pipa e do subsolo, de onde a água está sendo captada. Ele atribuiu o quadro atual ao descontrole dos recursos do açude Arrojado Lisboa, em Banabuiú. Muita água foi desperdiçada. O alerta é feito também para quem mora em Fortaleza.

 

Contra a liberação

 

Na cidade de Iguatu, o decreto Estadual motivou representantes de entidades de classe a reforçar a luta contra a liberação de água no Açude Trussu para reduzido número de produtores rurais. No próximo dia 15, haverá reunião da Comissão do Açude com a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) para definir novos valores. “A situação está ficando cada vez mais grave e não podemos aceitar a continuação dos valores atuais porque o açude que abastece três cidades (Iguatu, Acopiara e Quixelô) está secando rapidamente”, disse o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iguatu, Evanilson Saraiva.

 

O embate deve ser acirrado na próxima reunião da Cogerh. O prefeito de Iguatu, Aderilo Alcântara, disse que o governo precisa adotar ações mais concretas porque a continuidade do quadro de seca é iminente. “As comunidades precisam de mais carros pipa e de mais poços profundos instalados”, defendeu. “Houve uma lentidão no programa de poços, mas é preciso ampliar agora, com aquisição de mais máquinas perfuratrizes”.

 

A extensão do quadro de seca vai inviabilizar a continuidade dos criatórios de peixe no Açude Orós e em outros reservatórios, além de afetar a economia rural, com impactos nas atividades produtivas agropecuárias. “Muitos produtores vão suspender a atividade, gerando desemprego e aumentando a crise no campo”, prevê o diretor da Unidade de Pecuária de Iguatu (Upeci), Mairton Palácio. Já o agrônomo Paulo Maciel, da ONG Instituto Jaguaribe, observou que a prioridade e a preocupação deve ser com o acesso à água para o consumo humano e animal.

 

Essa também é a preocupação dos trabalhadores rurais de Canindé. Eles promoveram uma manifestação nesta quinta-feira no pátio da Prefeitura. Querem a ampliação do número de senhas por comunidades rurais, dos carros-pipa, ainda maquinas retroescavadeiras para abrir cacimbas nas áreas de aluviões, nos leitos dos rios e nos açudes secos, ainda a perfuração de poços e a instalação dos já perfurados. O protesto, encabeçado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais deste Município, com a participação de agricultores de Boa Viagem, Caridade, Itatira, Madalena e Paramoti, deve seguir até hoje. Eles pretendiam acampar defronte ao Paço Municipal.

 

Ampliação

 

A perfuração de mais poços e a transposição do rio São Francisco. Essas são as alternativas traçadas pelo Governo do Ceará, através da Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH), na eventualidade de os prognósticos desfavoráveis quanto à pluviosidade no Estado se confirmarem no próximo ano durante a quadra invernosa. Até o início da segunda quinzena de outubro, serão realizadas mais cinco atas de registros de preços, para contratação de serviços de perfuração de poços e compra de mais máquinas perfuratrizes.

 

A informação foi passada pelo secretário estadual dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, um dia após o Governo publicar no Diário Oficial do Estado, Ato Declaratório de situação crítica de escassez de água. Para atender as cidades onde há eminência de esgotamento dos recursos hídricos disponíveis nos açudes, o subsolo realmente será a salvação. Apesar de mais de 80% do solo cearense ser pobre em vazão, a ampliação do número de perfurações é a alternativa para evitar o colapso total.

 

O Governo do Estado pretende comprar mais 20 maquinas perfuratrizes e juntamente com as outras 11 já disponíveis, serão distribuídas nos consórcios municipais. O número de empresas a serem contratadas para também realizarem esse tipo de serviço ainda não foi definido, mas a estratégia é agilizar, aumentar o número de perfurações. No início de setembro passavam de 500 este ano.

 

Regiões críticas

 

As ações estarão concentradas em cidades onde há um número razoável de habitantes. Francisco Teixeira diagnosticou cada região do Estado e apontou como mais críticas o Sertão dos Inhamuns e o Sertão Central, onde Boa Viagem é um exemplo. Com cerca de 30 mil habitantes, a área urbana está sendo abastecida através de 80 poços. Mas no caso de cidades maiores, como Quixadá e Quixeramobim, o açude Pedras Brancas, em Banabuiú, garantirá o abastecimento até 2017. Uma adutora de 60Km está sendo construída para levar água até esta última cidade.

 

No Cariri, a situação é a menos grave. Boa quantidade de água pode ser captada do subsolo da região. Trata-se de um aquífero sedimentar, esponjoso, de onde é possível extrair a água com mais facilidade. Noutra região onde há grande concentração populacional, a Zona Norte, mais precisamente Sobral, além da facilidade da água escorrer da Serra Grande, os açudes ainda apresentam bom volume, o suficiente para suportar a continuação da estiagem em 2016.

 

De acordo com o último boletim, os 153 açudes do Estado monitorados pela Cogerh apresentavam volume de 2,93 bilhões m³, o equivalente a 15,61% da capacidade total.

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