Escritório do Ceará é suspeito de concentrar desvio de verba

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26 jul 2014
Foto: Alex Costa / Diário do Nodeste.

Foto: Alex Costa / Diário do Nodeste.

Milhões de reais destinados a ações assistenciais podem ter sido desviados das contas da Cruz Vermelha Brasileira por antigos gestores da organização humanitária. A constatação é fruto de uma auditoria feita por uma empresa de consultoria internacional contratada pelo conselho diretor da entidade. Os supostos desvios estão concentrados nas filiais do Ceará e Maranhão, além de Petrópolis, no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2012. Em nota divulgada ontem (25), a Cruz Vermelha Brasileira revela que foram encontrados gastos sem comprovação e movimentações suspeitas da ordem de R$ 25 milhões.

 

“Foi uma auditoria complexa e minuciosa e, por isso mesmo, longa”, informa a diretoria da organização em comunicado divulgado na última quinta-feira. As irregularidades apontam para desvios de doações para as vítimas de conflitos e da seca na Somália, do tsunami no Japão, das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro e para campanha de prevenção à dengue.

 

“Há comprovações de irregularidades e considera-se que alguns desses casos podem ser delitos, enquanto outros se configuram como faltas administrativas, menos graves, mas não menos passíveis de punição”, afirma a entidade. Entre as deficiências e irregularidades, estão a falta de controle interno e a ausência de documentos.

 

A Cruz Vermelha Brasileira garante que tomará as providências necessárias, inclusive judiciais, para reaver os recursos e destiná-los aos beneficiários. Além de entregar cópias do relatório final ao Ministério da Justiça, a diretoria da entidade promete acionar os ministérios Público Federal e estaduais para que adotem medidas judiciais.

 

“A responsabilidade de corrigir os problemas apontados na auditoria é da Cruz Vermelha Brasileira, que adotará os procedimentos judiciais e administrativos para punir quem deu causa às irregularidades e ilegalidades. Nos casos em que a auditoria não é conclusiva, a entidade realizará investigações internas e, quando cabível, apresentará denúncia à Justiça, além de entregar o relatório da auditoria às autoridades competentes”, diz a diretoria.

 

Além de apontar o suposto desvio financeiro, a consultoria contratada apresentou um plano de recuperação das contas da entidade – que confirmou que vai colocar em prática todas as recomendações do relatório. A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV), à qual a organização brasileira é filiada, determinou que uma comissão acompanhe a implementação das recomendações.

 

“A atual diretoria está implementando mudanças e está comprometida com uma solução definitiva, à altura de uma organização como a Cruz Vermelha, reconhecida por seus princípios e pela pertinência de sua ação humanitária”, acrescenta o comunicado.

 

Em fevereiro de 2013, a Cruz Vermelha Brasileira devia cerca de R$ 90 milhões aos cofres públicos e a antigos funcionários que recorreram à Justiça para receber direitos trabalhistas. O presidente da entidade à época, Nício Brasil Lacorte, atribuiu a situação à “má gestão” da entidade ao longo de “mais ou menos 20 anos” – período durante o qual a Cruz Vermelha Brasileira teve algumas gestões marcadas pela “pouca transparência”.

 

Reparação

 

Procurada pela reportagem, a Cruz Vermelha Brasileira afirmou que entregará os documentos da auditoria às autoridades competentes. Os relatórios serão encaminhados tanto à Justiça quanto aos ministérios público federal e estadual.

 

Questionado sobre a participação do escritório do Ceará nos desvios, a instituição explica que não pode revelar detalhes da investigação e que isso ficará a cargo das autoridades competentes. A Cruz Vermelha informa ainda que pedirá reparação dos danos e vai tentar reaver toda a verba desviada.

 

O presidente do escritório da Cruz Vermelha no Ceará, Júlio Cals, afirma que foi uma das pessoas que mais lutou para que o desvio de verbas fosse descoberto. Ele conta que, assim que assumiu a gestão em 2013, enviou a documentação da entidade para a empresa que fazia a auditoria. Cals revela que os envolvidos no desvio não integram mais a gestão da Cruz Vermelha no Estado.

 

Diário do Nordeste

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