Guardadores de experiências são pessimistas sobre chuvas

Guardadores de experiências são pessimistas sobre chuvas

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8 jan 2018

As observações de agricultores sobre a natureza, plantas, pássaros, insetos, floração de árvores, estrelas, lua e vento podem indicar características da quadra chuvosa que se aproxima no Ceará. No sítio Aroeiras, em Guassussê, zona rural de Orós, município do Centro-Sul cearense, um grupo de agricultores participou do Encontro dos Guardadores de Experiências Populares de Chuva e de Sementes no Sertão. A maioria revela a crença em mais um ano de reduzidas chuvas e de inverno tardio.

 

um grupo de agricultores participou do Encontro dos Guardadores de Experiências Populares de Chuva e de Sementes no Sertão. FOTO: HONÓRIO BARBOSA

 

Reunidos sob a sombra de um pé de cajarana, os participantes trocam experiências, falam da vida no sertão, dos anos secos, das dificuldades sem água. “Chuva mesmo para encher açude só em 2020”, avisa o agricultor, Francisco Vítor de Araújo, 68. “Neste ano, será mais uma vez fraco, inverno irregular e fino”.

 

Um dos mais experientes observadores, o agricultor aposentado Antônio Alcântara, 84, mostrou-se preocupado. “Queira Deus que eu esteja enganado, mas será um inverno irregular”, afirma. “O vento Aracati veio tarde e falhou”.

 

O temor de mais um ano de chuvas abaixo da média instala-se entre os participantes, mas alguns mantêm a fé de que as coisas vão melhorar depois de seis anos seguidos de chuva irregulares e abaixo da média, com perda sucessiva das reservas hídricas. “Mais um ano desmantelado, o Orós vai secar e outros açudes grandes também”, observa o produtor rural Raimundo Landim, que costuma verificar dez experiências. “Cinco deram boas e cinco foram fracas”.

 

O posicionamento da estrela Dalva, em janeiro, o nascer da primeira lua cheia do ano, acompanhada ou não de nuvens, o surgimento do sol, a ocorrência de chuva ou não em dias santos, a regularidade do vento Aracati, que sopra do mar para o sertão entre setembro e dezembro, o posicionamento do ninho do João de Barro e do enxu de abelha. Tudo isso faz parte das observações dos profetas da chuva.

 

José Santana, agricultor e poeta, traz versos para o encontro, além de suas observações. “É mais um ano de preocupação, mas não podemos perder a fé, e há como conviver com o sertão, mesmo em tempos ruins”, frisa. “Observo várias coisas e tenho sonhos”.

 

O diretor da Cagece, Helder Cortez, que pela primeira vez participa do encontro em Guassussê, mostra-se feliz com o evento. “Aqui ocorre o resgate da cultura, a sustentabilidade com o Semiárido, a confraternização, a troca de experiências e as previsões”, observa. “O importante é manter essa tradição viva”. Cortez é o idealizador do tradicional Encontro de Profetas da Chuva de Quixadá, que será realizado no próximo sábado.

 

A iniciativa do encontro é do projeto Sertão Vivo e tem por objetivo manter a tradição, a memória dos antepassados que costumavam fazer previsões acerca do inverno. Neste ano, foi a 9ª edição, que reuniu um maior número de participantes. O músico Zé Vicente, que mantém o projeto Sertão Vivo com encontros de agricultores, promovendo a arte e a cultura, diz que o encontro dos agricultores visa à manutenção da memória dos ancestrais.

 

No sítio Aroeira, o Encontro dos Guardadores de Experiências Populares de Chuva e de Sementes no Sertão, é realizado sempre no Dia de Reis. “Lutamos para a preservação da nossa cultura, da natureza, do nosso sertão, que é vivo. Quando chove tudo fica verde, a vida pulsa, em cada roça volta a florir e floresce a esperança”, finaliza Zé Vicente, ao som de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

 

Fonte: Diário do Nordeste

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