Quase metade dos alunos não conclui o ensino médio no Ceará

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9 dez 2014
Estudo revela, ainda, que sete entre 100 alunos repetem a série mais de uma vez em três anos. A repetência está associada principalmente à falta de motivação, à má qualidade do ensino e, consequentemente, à formação do aluno. (Foto: Alex Costa)

Estudo revela, ainda, que sete entre 100 alunos repetem a série mais de uma vez em três anos. A repetência está associada principalmente à falta de motivação, à má qualidade do ensino e, consequentemente, à formação do aluno. (Foto: Alex Costa)

A evasão e a repetência escolar são fenômenos interligados e a combinação deles aparece como uma das principais falhas do sistema educacional brasileiro. É o aponta pesquisa da Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (Caen/UFC). Segundo o estudo, quatro entre dez jovens, entre 15 e 17 anos, não concluem o ensino médio no Ceará. Além disso, sete entre 100 alunos repetem a série mais de uma vez em três anos.

 

O estudo foi apresentado no auditório do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) e traz uma análise das causas determinantes para esses dois gargalos do setor. A pesquisa teve como fontes o Sistema Permanente de Avaliação da Educação no Ceará (Spaece) 2008 e o Censo Escolar do mesmo ano. O recorte leva em consideração os três anos do Ensino Médio ou seja, de 2008 a 2011.

 

Entre as causas da evasão, estão a repetência escolar, o atraso (distorção entre idade e série), o nível escolar dos pais e a falta de motivação e integração (como deixar de fazer as tarefas de casa), o desejo de alcançar a independência financeira (principalmente entre os homens) e a dificuldade de deslocamentos.

 

A repetência está associada principalmente à falta de motivação, à má qualidade do ensino e, consequentemente, à formação do aluno. Sem falar na violência urbana, tráfico de drogas e gravidez precoce. O estudo também observou que os homens, por serem mais propensos que as mulheres a ingressarem no mercado de trabalho mais jovens, têm maior chance de repetir alguma série durante o ensino médio.

 

Com respeito à raça, os pesquisadores constataram que ela não é importante para explicar a probabilidade de evasão. No entanto, ao tratar da repetência, aqueles que se declararam brancos tiveram uma redução de 13% nas chances de serem retidos ao longo do período analisado.

 

Para os estudantes cujas famílias são beneficiárias do Programa Bolsa Família, as chances de evadir ou repetir são aproximadamente 12% menores.

 

Conforme os autores Maitê Rimekká Shirasu e Ronaldo de Albuquerque e Arraes, a motivação do estudo está associada, por um lado, aos altos custos e à ineficiência econômica que a evasão e a repetência representam e, por outro, a obstruções para melhorias de indicadores educacionais que se refletem diretamente no crescimento econômico e mercado de trabalho.

 

A repetência, ressaltam, é um indicador de ineficiência grave no fluxo escolar, embora a verdadeira dimensão desse problema só transpareça quando se consideram os custos financeiros para a sociedade. Recente estimativa do Banco Mundial indica que o Brasil gasta mais de R$ 11 bilhões por ano com estudantes que repetem um ano.

 

Gastos

 

Para esses níveis de gastos por aluno, indica a pesquisa, cada aumento de 1% na taxa de repetência corresponde a um aumento do custo para o Governo de mais de R$ 500 milhões. O Ceará, analisam os dois pesquisadores, apesar de ser um Estado pobre, tem adotado estratégias para melhorar a qualidade das escolas e na redução das taxas de evasão e repetência, através das seguintes políticas: aumento de escolas em tempo integral, parceria com indústrias locais para o fornecer estágio remunerado aos alunos, campanhas para melhorar a estrutura das escolas, qualificação de professores e programas de incentivos a gestores, professores e alunos.

 

Por meio de nota, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) informou que desenvolve, desde 2008, uma série de projetos que buscam melhorar a experiência dos estudantes na escola, como por exemplo o Projeto Professor Diretor de Turma (PPDT), que se caracteriza pela indicação de um dos professores para assumir a função de diretor de turma.

 

Além disso, em 2011, a Seduc firmou parceria com o MEC e o Instituto Unibanco para o desenvolvimento do Programa Ensino Médio Inovador/Jovem de Futuro (ProEMI/JF), visando consolidar a autonomia das escolas, contando com apoio financeiro diferenciado para alcançar metas pactuadas, nas quais está inclusa a redução de 50% das taxa de abandono.

 

A Seduc ainda destaca as melhorias alcançadas nos últimos anos. Em comparação a 2008, no Ensino Médio da rede estadual, a taxa de abandono saiu de 15,7% para 9,6%, em 2013. Com relação à reprovação, esse número caiu de 7,8% em 2008, para 7,3%, em 2013. Já a taxa de aprovação de alunos do Ensino Médio subiu de 76,6% para 83,2%, nesse mesmo período.

Índices melhoram, mas estão aquém

Pouco mais de 54,3% dos jovens cearenses, até os 19 anos de idade, concluem o ensino médio na idade certa. Apesar de ainda apresentar uma melhora acentuada dos índices em relação à 2007, quando a taxa de aprovação para a mesma faixa etária era de 40,4%, o Estado ainda está abaixo da meta desejada, que é de 56,7%. Os dados revelam a grande dificuldade que o Ceará, assim como o Brasil, tem de motivar o jovem a concluir o Ensino Médio.

 

O estudo revela que o Ceará, com 54,3% de aprovação, apesar dos problemas, lidera o ranking entre os estados nordestinos com relação a melhoria dos números do ensino médio. O segundo colocado é Pernambuco, com 49,8%, seguido pelo Piauí, com 49%. Depois estão Sergipe, com 48,9%; Paraíba, 48,3%; Rio Grande do Norte, 46,3%; Maranhão, com 40,3%; Bahia, 37,9% e Alagoas, com 35,2%.

 

A mesma situação é observada no ensino fundamental, quando o índice de aprovação dos jovens até os 16 anos de idade chegou a 71,8%, ficando aquém da meta ideal de 82%. Em 2007, o Estado alcançou índice de 57,1% de aprovados, superando a meta de 54,5%.

 

Pouco mais da metade dos jovens brasileiros, apenas 54,3%, conseguiram concluir o Ensino Médio na idade considerada adequada. No Ensino Fundamental, a conclusão até os 16 anos foi alcançada por 71,7% dos jovens. As metas definidas pelo movimento para 2013 eram de, respectivamente, 63,7% e 84%.

 

Os números ainda estão longe do estipulado pelo Todos Pela Educação até 2022. O movimento espera que 95% ou mais dos jovens brasileiros de 16 anos devem completar o Ensino Fundamental e 90% ou mais dos alunos de 19 anos devem concluir o Ensino Médio.

 

O estudo mostra ainda que 19,6% dos jovens de 15 a 17 anos estão ainda no ensino fundamental, 15,7% não estudam e não concluíram o ensino médio, e 5,9% não estudam mas já terminaram o ensino médio.

 

Estado

 

O Secretário da Educação do Ceará, Maurício Holanda, comentou que, apesar dos números não alcançarem os índices esperados, o Estado tem conseguido conquistar resultados cada vez melhores, destacando-se no Norte/Nordeste.

 

“Esses dados são muito estáticos, não são índices possíveis de se reverter rapidamente. Tanto é que nenhum outro Estado está cumprindo as metas. O que os dados têm nos mostrado não é só o que está sendo feito nas escolas hoje, mas também o que não foi feito nos anos anteriores. Não é possível, por exemplo, melhorar em apenas três anos o Ensino Médio quando esses alunos não tiveram uma boa escolarização no Ensino Fundamental”, expõe.

 

Segundo ele, é necessário rever a meta estabelecida ou imaginar que a educação nos estados vai melhorar devagar nos primeiros anos e mais rápido depois.

 

Diário do Nordeste

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