Rapaz se adota como surdo por amor à namorada deficiente auditiva

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27 set 2014

Surdo-mudo não. Surdo-mudo nunca! Essa é uma das principais reclamações de quem é deficiente auditivo. O que muita gente não sabe é que esse é um termo errôneo, já que mesmo sem falar verbalmente, os surdos ainda se comunicam. As mãos que não produzem sons, expressam uma imensidão de sentimentos. Prova disso é o relacionamento de Bruno Pimentel (25) e Rafaela Matos (28), que se conheceram através de uma sucessão de coincidências, ou força do destino, como ele prefere dizer.

 

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Primeira foto do casal, no dia do primeiro beijo. (Foto: Arquivo pessoal)

Os dois moram no mesmo bairro, trabalham na mesma empresa, frequentam a mesma academia e têm um amigo em comum, mas nunca tinham se visto. Foi na academia do Bairro São João do Tauape, onde moram, em Fortaleza, que Bruno viu Rafaela pela primeira vez e se encantou. Sem saber que Rafa é surda, Bruno soltou um “Boa noite, gatinha!”, que não teve resposta.

 

De personalidade forte e explosiva, Bruno não gostou da “arrogância” de Rafaela por não corresponder às investidas do conquistador. Um dia, no ônibus, viu o amigo do trabalho, Daniel, conversar com Rafa por um aplicativo de mensagens instantâneas no celular. Pensou então que o amigo era ponte para chegar até a menina. Usou o Facebook para se aproximar da “baixinha arrogante” e mais uma vez não obteve resposta. Rafaela, só o adicionou porque Daniel pediu. Foi por internet que a paquera começou.

 

Apesar da timidez de Rafaela, o casal consegue se divertir. (Foto: Arquivo pessoal)

Apesar da timidez de Rafaela, o casal consegue se divertir. (Foto: Arquivo pessoal)

Pela insistência de Bruno em saber de Rafaela, ele descobriu que a menina não escutava. Implorou ao amigo “cupido”, para que ele desse aulas de Língua Brasileira de Sinais (Libras) para conseguir se comunicar com a nova “paquera”. Novamente na academia, o rapaz resolveu convidar Rafa para comer, mas lembra que não tinha dinheiro suficiente para os dois: “Eu só tinha 13 reais. Fiquei lá, parado na frente dela, vendo ela comer. Ela perguntava se eu não ía comer também e eu dizia que não, mas eu tava morrendo de fome”, responde rindo.

 

Rafaela não gosta de tatuagens. Bruno tem 33. Rafaela gostava de homem mais magro. Bruno pesava quase 100kg. Rafaela não fala nada verbalmente. Bruno não sabia Libras.. O que tinha tudo pra dar errado, começou a mudar na época da Copa do Mundo de 2014, quando ele pediu para “ficar” com ela, por meio de sinais. “Pedi pro Daniel me ensinar pelo menos ‘Quer ficar comigo?’”, comenta rindo. A resposta veio em forma de beijo. Depois disso, não se largaram mais. Rafaela pediu o rapaz em namoro.

 

Bruno também é deficiente auditivo. A mãe biológica engravidou com mais de 40 anos e, segundo os médicos, a perda de parte da audição vem disso. Ele tem apenas 50% em um ouvido e 60% em outro. Na infância, a mãe adotiva conta que, sem saber da deficiência, dizia que Bruno fazia “ouvido de mercador”. Foi apenas quando tentou entrar para a Marinha, que descobriu que não escutava perfeitamente, reprovado no exame médico.

 

A imperfeição na audição não implica na voz de Bruno, que hiperativo, fala pelos cotovelos. O desafio agora é justamente calar-se, porque em nome do amor pela namorada, na tentativa de fazer com que ela não se sinta excluída, Bruno se adotou como surdo completamente. Quando está com ela, só fala por sinais.

 

Os dois contam que uma vez estavam em um shopping de Fortaleza e entraram na fila preferencial para deficientes, no cinema. Como aparentemente não tinham nada de “errado”, as pessoas não os respeitavam e passavam na frente. Enquanto isso, Bruno se controlava para não reclamar verbalmente. No jantar após o cinema, quando chegou ao caixa e demonstrou o que queria por gestos, a atendente simplesmente saiu, sem preparação nenhuma para atender ao casal surdo.

 

Rafaela é formada em Recursos Humanos e já nasceu surda. Frequentou colégios para ouvinte sem muita dificuldade e faz leitura labial perfeitamente. A jovem tem um filho de 4 anos, que é ouvinte. Apesar do temperamento forte, ela é hoje o ponto de tranquilidade de Bruno. Infelizmente, os dois acabaram tendo que se afastar de algumas pessoas pelo preconceito. Há amigos que não entendem os motivos pelos quais o rapaz tenha tomado decisão de se assumir inteiramente surdo.

 

O casal, junto há quatro meses, vive intensamente a paixão eufórica, típica de começo de namoro. Vivendo em um mundo mais particular, os dois aproveitam a vida, tentando superar as dificuldades que a falta da audição impõe. Em comemoração ao Dia Nacional do Surdo (26 de setembro), Bruno fez mais uma surpresa para Rafaela: a história de amor dos dois publicada em página de jornal.

 

Tribuna do Ceará

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